domingo, 25 de novembro de 2012

Quando Jesus se tornou Deus

Ícone do séc. IV d.C.
Todo estudante de teologia tem suas questões. O problema é que nem todas as respostas são satisfatórias, por duas razões: primeira, falta de preparo dos professores, que por estar inserido num contexto denominacional tem a visão curta e não consegue enxergar muito longe; segunda, não ferir os interesses da instituição contradizendo os ensinamentos tradicionais.
Estudei teologia no Seminário Teológico Batista em São Paulo, uma instituição séria, conservadora e muito respeitada. Naquela época as minhas questões eram, entre outras, a Controvérsia Ariana. As respostas sempre foram: a “Controvérsia Ariana foi um caso de heresia”.
A cada dia meus questionamentos iam ficando cada vez mais complexos. Mas não tinha medo de questionar a própria crença*. Na época, tomei essa atitude como sinal de fraqueza (na realidade, eu pensava ter quase todas as respostas para as perguntas); no fim, passei a considerá-la um comprometimento real com a verdade, própria de alguém desejoso de se abrir à hipótese de que as próprias posições têm de serem revistas à luz do conhecimento e dos fatos.
Durante muito tempo eu sempre voltava a meu questionamento básico: a Controvérsia Ariana. Essas dúvidas me afetaram e me levaram a mergulhar, cada vez mais, em busca da verdade. Foi aí que decidi abandonar a minha formação religiosa e passar para uma formação acadêmica sem os limites de uma instituição religiosa com seus conservadorismos.
Eu estava apaixonado pelo conhecimento. Se aprender a verdade significasse não mais me identificar com os cristãos, que assim fosse. Meu interesse era avançar em minha busca da verdade.
Uma reviravolta aconteceu quando descobri qual era o verdadeiro significado da Controvérsia Ariana. Uma vez admitido isso, as comportas se abriram.

O Concílio de Nicéia

Foi no Concílio de Nicéia (325 d.C.) que se deram os passos decisivos no sentido de criar uma religião unificada, engendrada de forma a servir ao Imperador como forma de domínio político, religioso e social.
O deus do Império deveria ser suficientemente forte para opor aos deuses do Olimpo, ao YAHWEH dos hebreus e a Buda do Oriente. Misturando as divindades orientais com as antigas histórias de Moisés, Elias e Isaías, foram assim convenientemente criados os símbolos da nova igreja romana. De igual modo, para a fabricação desta nova religião, assimilaram-se práticas do paganismo mais convenientes, enquanto, em paralelo, todas as filosofias contrárias ao interesses da Igreja e do Império eram suprimidas ou destruídas.
O Concílio de Nicéia constituiu-se como o primeiro de vinte e um concílios (oficialmente reconhecidos) realizados ao longo dos séculos com o fim de fabricar e consolidar a doutrina de uma nova religião concebida para o fácil controle das populações. Iremos ver como nele foram instituídas as primeiras “ferramentas” facilitadoras da criação de um Deus.

O verdadeiro propósito da Controvérsia Ariana

Como resultado de uma controvérsia entre os líderes da Igreja em Alexandria, Ário, Alexandre e Atanásio, secretário e sucessor de Alexandre. Uma discussão se sucedeu, Ário defendia a tese que Jesus, embora grande, era inferior a Deus. Alexandre e Atanásio, pelo contrário, opuseram afirmando que Jesus era igual a Deus. A grande pergunta de Ário: “Se existe um Pai e um Filho, então existem dois deuses. Se existem dois deuses, então o Cristianismo não pode ser monoteísta (um único Deus) e sim politeísta (vários deuses) como na religião pagã?”
Em 318 d.C., a controvérsia veio à tona. Ário afirmou que se Jesus era realmente Filho de Deus, então deveria haver um tempo em que havia um Pai, mas nenhum Filho. O Pai, portanto, era maior que o Filho.
O significado da controvérsia eram dúvidas em relação à natureza de Jesus. O problema era: Jesus é da mesma substância ou é parecido em substância, com Deus? Essa era a questão em discussão. A controvérsia foi tratada em cima de termos do idioma grego, e como foi expressa em grego, toda a questão girava em torno de uma simples palavra. A palavra que expressava a crença de Alexandre é HOMOOUSION. A palavra que expressava a crença de Ário é HOMOIOUSION. Homoiousion (de substância parecida) e homoousion (da mesma substância).
É importante observar a sedução intelectual da filosofia grega sobre a teologia do quarto século. Mesmo antes do estabelecimento do papado, os ensinos filosóficos pagão haviam recebido atenção e exercido influência na Igreja.
A doutrina de Ário dizia que Jesus era um ser criado. A doutrina de Atanásio dizia que Jesus não fora criado e sim era um ser igual e eterno, como Deus seu Pai. No Concílio de Nicéia a doutrina de Ário foi rejeitada. Caracterizaram Jesus como da mesma substância do Pai. Estabeleceram que há somente um Pai (a distância entre  o Pai e o Filho está dentro da unidade divina); o Filho é Deus e Deus é o Filho, o Filho foi gerado e não feito (aqui não vejo qual diferença há entre gerado e feito); se Jesus foi gerado ele é Filho de Deus, então existe dois deuses, e aí onde fica o monoteísmo? ; se Jesus foi criado, então, não pode ser Deus é uma criatura. Deste ponto até a criação da teoria da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) foi um pulo.
Os cristãos que discordaram dessa decisão foram perseguidos e exilados. E os escritos de Ário foram destruídos. Constantino decretou que qualquer um que fosse apanhado com documentos arianitas estaria sujeito à pena de morte.
Por influência de Constantino, o Cristianismo entrou no desvio, da mesma forma que acontecerá com o judaísmo. Surgiu o profissionalismo religioso, as práticas pagãs, como rituais e rezas, que foram assimiladas ou adaptadas. Montaram uma estrutura dogmática para atender aos interesses da classe religiosa que impunha aos fiéis com afirmações: “fora da igreja não há salvação”. A crença* (mais precisamente a crença cega) foi declarada o grande baluarte da salvação: “gredo quia absurdum”, ou seja, “acredito mesmo que seja absurdo”, criado por Tertuliano (155-220 d.C.).
A divindade de Jesus nunca foi fato nem consenso. A instituição de sua divindade foi um ato político/religioso, de poder. Deixaram os ensinamentos de Jesus de lado para institucionalizarem o Cristianismo. Montaram uma estrutura para que a igreja que surgia tivesse poder e dinheiro, ou seja, o Cristianismo já tinha em seu seio pessoas más intencionadas, e poder e dinheiro atraem pessoas más que gostam de fazer mal uso dele. E o Cristianismo perdeu a sua essência e nele se instalou a hipocrisia.

*Observação: A palavra "FÉ" foi substituída pelas palavras "crença e crer". Por que "FÉ", significa "FIDELIDADE", vem do latim "FIDES".

Neste blog você irá encontrar uma reunião de informações dos mais diferentes seguimentos do saber, das ciências e das artes.
Espero que gostem, aguardo seus comentários e sugestões. Z3view@gmail.com







domingo, 11 de novembro de 2012

Dogma da Trindade

Representação da Trindade Divina
Nesta postagem vamos ver que e Dogma da Trindade como pregada pela igreja católica, pelo protestantismo e por várias denominações evangélicas não tem base bíblica. Na verdade, a palavra “Trindade” nunca aparece na Bíblia. Esta doutrina é completamente estranha aos israelitas do Antigo Testamento e ausente do Novo Testamento. Nesta seção mostraremos como o Dogma da Trindade foi introduzida paulatinamente na igreja cristã.
Nos primeiros séculos da era cristã o mundo estava sob o controle dos romanos. Os Imperadores daquela época perceberam que poderiam governar com maior facilidade utilizando-se da religião, unindo a Igreja com o Estado. Mas estes governantes tinham um desafio: agradar cristãos e pagãos. A forma encontrada foi adaptar o Cristianismo ao paganismo. Isso causou o que podemos chamar de paganização do Cristianismo.
No livro “History of Christianity” de Edward Gibbon, lemos: “Se o paganismo foi conquistado pelo Cristianismo, é igualmente verdade que o Cristianismo foi corrompido pelo paganismo. O puro deísmo dos primeiros cristãos... foi mudado, pela igreja católica romana, para o incompreensível Dogma da Trindade. Muitos dos dogmas pagãos, inventados pelos egípcios e idealizados por Platão, foram retidos como sendo dignos de crença”.
Desta forma, misturando o paganismo com o Cristianismo, tais imperadores conseguiram agradar o grupo de pagãos e o de cristãos. Os conceitos básicos para o estabelecimento do Dogma da Trindade surgiram dentro deste contexto como forma de conciliar o culto politeísta (vários deuses) dos pagãos com o culto cristão de adoração a um único Deus.
Flavius Valerius Constantinus (285-337 d.C), Constantino o Grande, era filho do Imperador Constâncio I. Quando seu pai morreu em 306 d.C., Constantino tornou-se imperador da Bretanha, Gália (atual França) e Espanha. Aos poucos, foi assumindo o controle de todo o Império Romano. Divergências teológicas relativas a Jesus começaram a se manifestar no império de Constantino quando dois oponentes principais se destacavam dos outros e discutiram sobre se Jesus era um ser criado (doutrina de Arius) ou não criado, e sim igual e eterno como Deus (doutrina de Atanásio).
A guerra teológica entre os adeptos de Arius e Atanásio tornou-se acirrada. Constantino percebeu que seu império estava sendo ameaçado por esta divisão doutrinal. Constantino começou a pressionar as lideranças cristãs para que as partes chegassem a um acordo antes que a unidade de seu império ficasse ameaçada. Finalmente, o imperador convocou um Concílio em Nicéia, em 325 d.C., para resolver a disputa. 318 bispos compareceram, o que equivalia a apenas uns 18% de todos os bispos do império. Dos 318, apenas uns 10% eram da parte ocidental do império de Constantino, tornando a votação tendenciosa, no mínimo. O imperador manipulou, pressionou e ameaçou o concílio para garantir que votariam no que ele acreditava não em algum consenso a que os bispos chegassem.
Neste Concílio foi votado que Jesus era Deus. Pressionada por Constantino, a votação foi a favor de Atanásio. Foi adotado um credo que favorecia a teologia de Atanásio. Arius foi condenado e exilado.
Em 381 d.C., o imperador Teodósio (um trinitarista) convocou um Concílio de Constantinopla. Apenas os bispos trinitaristas foram convidados a participar. 150 bispos compareceram, foram ratificadas as decisões do Concílio de Nicéia e uma votação alterou o credo de Atanásio para incluir o Espírito Santo como parte da divindade. A Doutrina da Trindade era agora oficial para a Igreja e também para o Estado.
O Dogma da Trindade sempre foi uma pedra no sapato do Cristianismo contra a denúncia judaica e islâmica de que o cristianismo não é monoteísta (um Deus único). A partir daí, os padres da igreja por séculos lutaram contra a acusação de que a trindade era politeísta. Armados de um sofisticado platonismo cristão, eles se dispuseram, a articular uma defesa.
Os pais gregos viam uma essência e três substâncias, ao passo que os bizantinos proclamavam uma essência, ou substância e três pessoas. Para os bizantinos, a Trindade compreendia três sujeitos; para os gregos, três objetos – mas a diferença era, basicamente, lingüística e, na prática, nada marcante.
A Trindade é tão sedutora para a imaginação quanto qualquer outro politeísmo, e gregos e bizantinos tinha culturas ancestrais repletas de deuses e deidades menores.
Considerando-se as igrejas cristãs de hoje, 99% delas sustentam o Dogma da Trindade, mesmo não sabendo o que constitui realmente a Trindade e suas implicações que afetam outras doutrinas fundamentais da Bíblia. Isso ocorre porque a maioria dos membros não tem a mínima noção da origem dessa doutrina, mas insistem em defender teses sobre a Trindade. Dizem ser a Trindade um mistério. O Dogma da Trindade não é um mistério, é um atentado à lógica, especialmente por violar o mais elementar conceito sobre quantidade: Três deuses constituem um só Deus.
Essa violência só seria admissível com uma explicação bíblica, para isso os trinitarianos apresentam três textos para “provar” a existência da trindade: I João 5.7; Mateus 28.19 e João 14.16.
Procedendo a uma leitura superficial do texto, tem-se a impressão da existência de uma trindade, mesmo porque o texto de I João fala que existem três no Céu e que os três são um. Mateus afirma que devemos ser batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. No entanto nenhuma doutrina é estabelecida baseando-se em apenas um ou dois textos da Bíblia, ou sem analise do contexto em que o texto está inserido.
E o mais interessante, é que em nenhum manuscrito grego do Novo Testamento antes do século IV citam a formula Pai, Filho e Espírito Santo. Tal formula só vem a aparecer nos manuscritos posteriores aos Concílios de Nicéia e de Constantinopla, respectivamente 325 d.C., e 381 d.C.


Antigo manuscrito grego
Percebe-se claramente que houve uma ousada tentativa de adulteração das Escrituras a fim de introduzir o Dogma da Trindade que nunca esteve claro na Bíblia. Será que esta foi à única tentativa dos padres trinitarianos? Ou será que eles tentaram adulterar outros textos para tornar do dia para a noite o Dogma da Trindade um ensino bíblico? Quantos textos bíblicos foram adulterados em favor da teoria trinitariana?
É muito difícil responder a estas questões, pois não temos os textos originais.
Os primeiros seguidores de Jesus não tinham idéia de que o conceito de trindade iria surgir ser votado por políticos, imposto por imperadores e um dia se tornaria parte integral do Cristianismo moderno. A maioria das igrejas cristãs apóia o Dogma da Trindade, mas ainda há algumas que rejeitam o ensinamento. Hoje em dia, temos a liberdade de acreditar em uma possibilidade ou outra, mas corremos o risco de sermos ridicularizados se negarmos o Dogma da Trindade.
Deus, quando estabelece a sua relação com o povo de Israel no Sinai, já deixa patente qual é a raiz do paganismo. Deuteronômio 6.4-5 aborda esta questão: “Ouve, ó Israel: IAHWEH nosso Deus é o único IAHWEH! Portanto, amarás a IAHWEH teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Bíblia de Jerusalém). A raiz do paganismo é tornar Deus mais um, ou outro, centro de nossa vida, desvirtuando a sua unicidade.

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domingo, 28 de outubro de 2012

Crente mudo cego e surdo

Quando a intolerância impera. Quando a obsessão dos que creem não aceita a opção de não crer. Ou quando o fanatismo religioso de uma crença não admite opções diferentes das suas. Quando a crença de uma determinada religião massifica-se e considera-se superior a qualquer outra concorrência de credo o conflito estabelece-se. Histórias, dogmas, conceitos, tudo pré-definido pela religião, impedem o raciocínio do crente e exigem a aceitação do estabelecido pela hierarquia religiosa. Não questionar, não pensar. Aceitar. Somente crer!!!
E em nome da religião, barbaridades foram e são cometidas. Cria-se a uma cúpula administrativa religiosa e para a manutenção do seu poder é exigido o não questionamento por parte daqueles denominados fiéis. É certo que pensamos ser livres, ter o livre arbítrio, mas em questões de crença, voltamos sempre à Alegoria da Caverna de Platão. Somos incapazes de pensar. A cultura religiosa nos é imposta porque somos incapazes de compreender. Enfim, somos estúpidos. Tudo o que é preciso para crer está determinado pelos procedimentos religiosos.
Não quero nem questionar dogmas, de qualquer religião que seja. Seria perder tempo e provocar sentimentos. Porque crer enfim é um sentimento que atesta a nossa incapacidade de procurar a moral. Essa moral, como ensinava Sócrates, que poderia ser ensinada e aprendida. E daí aquele que é mau o é porque não sabe. Mas pela religião é preferível incutir a moral pelo dogma religioso, impondo restrições, aprendendo limites, determinando posturas e acrescentando o medo. Enfim, o crente é doutrinado pelo pavor, pela punição, pela obediência. Pela ignorância. O que não sabemos, para aquilo que não temos respostas, serve a religião.
Precisamos dos limites religiosos? Somos incapazes de andar com nossas próprias pernas? Precisamos sempre ter alguma instituição que nos cerceie o pensamento? Que nos proíba o raciocínio? Que nos desculpe a ganância, a maldade, a intolerância, o ódio? Precisamos transferir nossas responsabilidades? Não queremos assumir a culpa de nossas deficiências? Os valores religiosos que nos são incutidos desde o nascimento nos levam a aceitar com passividade o não questionamento quando o foco é a religião. Dogma. Crença. Respeito. Questionar jamais... Duvidar ou não crer é uma agressão... Abaixo Descartes: você não pensa, mas existe.
Será que simplesmente somos arrogantes demais para aceitarmos a morte? Falta humildade em nosso comportamento? Ou por egoísmo não queremos aceitar a finitude da vida? Qual a necessidade de sermos eternos? Somos cretinos ou estúpidos demais para existirmos como sociedade sem o controle religioso? Entendendo que o grande norte de todas as religiões é justamente a promessa da vida depois da morte, fica claro o apego religioso. É a expiação das culpas e responsabilidades do indivíduo dentro da sociedade. Vida depois da morte. Fácil assim. Sem prova alguma. Uma assertiva que não permite contestação. Somente uma palavra: Crer. Questionar jamais. Simplesmente aceitar e acreditar. Aceitar a hipocrisia que alguma instituição religiosa qualquer possa lhe desculpar todas as atitudes feitas contra seus semelhantes e garantir uma vida eterna sem culpas. Pensar o contrário ou desconfiar disso é desrespeitoso...
A espécie humana dentro da biodiversidade do planeta, por pensar mantém a sua supremacia. Esta capacidade de pensamento permitiu a análise e o conseqüente entendimento. A compreensão do habitat levou a exploração. Permitiu às descobertas. Preparou o conhecimento, que a cada vez mais em velocidade exponencial, se auto-alimenta e com ajustes, retorna para a própria sociedade em forma de hábitos de vida. Com isso saímos das cavernas e estamos indo ao espaço. Tenta-se compreender o universo. De onde viemos e para onde vamos. (Quo vadis?) Sempre questionaremos. É talvez aqui, a nossa busca pelo eterno. Nossa carga genética querendo sobreviver, procurando os meios e soluções para isso. E cada vez mais servirá menos a explicação religiosa. Ou os limites impostos por ela.

Observação: A palavra "FÉ", foi substituída pelas palavras "crença e crer". Por quê "FÉ", significa "FIDELIDADE", vem do latim "FIDES".


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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Intolerância Religiosa

Tenho vergonha em dizer que um dia fui evangélico por causa de certo camarada (camarada, termo que ele usa para referir-se a outra pessoa), que vive deblaterando e promovendo o ódio, o preconceito e o que é pior, a intolerância religiosa. A Constituição Federal (5º, VI) garante liberdade religiosa a todo cidadão brasileiro. Isso inclui o direito de escolher a religião que deseja e o de expressar as tradições e ritos da crença escolhida. Mas, isso não vem ocorrendo há anos nas prédicas do camarada. O camarada, líder de uma religião “dita verdadeira”, faz suas próprias leis, perseguindo, por pensar não serem as outras “religiões verdadeiras”, mas quem pode dizer o que é verdadeiro ou falso quando se trata de religiosidade. O “verdadeiro” está na crença de cada um, no entender o outro como seu igual, suprimindo as diferenças, respeitando o livre arbítrio.
É fácil verificar que a ideia de intolerância religiosa parte da visão que muitos têm de que a sua religião é que é a verdadeira, e não abrem mão deste padrão, não se dão a chance de conhecer as outras culturas, outras religiões; contribuindo assim para o desrespeito com as demais religiões existentes, muitas delas, mais antigas que o catolicismo e que o protestantismo.
Tolerância religiosa significa reconhecer que cada povo, cada cultura, cada comunidade tem o direito de possuir sua própria religião e um modo próprio de reverenciar suas divindades. O que é padrão para um, pode não ser para outros, e ninguém tem o direito de impor qualquer religião ou crença a quem quer que seja. Tolerância significa aceitar o que parece errado, entender que o que é errado para uns, também tem sua verdade para outros; verdade esta que não é melhor nem pior do que qualquer outra verdade, e que deve ser respeitada não por bondade ou tolerância, mas principalmente, por acreditar que todos os grupos humanos possuem iguais poderes de ligação com a natureza divina; afinal, “ligação” ou “religação” nada mais é do que “religião”.
O camarada gosta de exaltar suas virtudes para criar um fã-clube que o aplaude. Aliás, muitos dos falsos “profetas” e pregadores contemporâneos não têm rebanho, mas fã-clube. É deprimente o culto à personalidade no cenário evangélico de hoje. Outra tragédia em nosso cenário é o narcisismo, com uma incrível exibição de arrogância espiritual. Trágico ainda é o camarada arrogar-se detentor da verdade e do conhecimento. Mas o que ele sabe mesmo é enriquecer a custa da ignorância do povo.


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Escatologia Cristã

Escatologia Cristã - última parte

A questão que está sempre presente na mente de todos os seres humanos é a questão relacionada com o futuro. "O passado a gente conta, o presente a gente curte, e o futuro a gente tenta avinhar"
Os cristãos creem na vida após a morte (imortalidade da alma), na segunda vinda de Cristo, na ressurreição dos mortos e no julgamento final. Mas o fato de creem nessas doutrinas não significa que todos os cristãos as aceitam do mesmo modo, em relação a forma como elas se cumprirão. Assim, ha uma variada divergência hermenêutica (interpretação), com pelo menos três escolas de interpretação: Amilenista, Pós-milenista e Pré-milenista.
Entre as maiores divisões que separam os cristãos (em especial protestantes e evangélicos) encontramos a divergência em relação ao milênio (Apocalipse 20).
Os pré-milenistas fazem uma distinção entre o julgamento dos crentes após o arrebatamento, o julgamento dos judeus e gentios convertidos no final da tribulação de sete anos e o julgamento dos incrédulos no final do milênio. O milênio será inaugurado e estabelecido com a Segunda Vinda de Cristo, após a tribulação e durará, literalmente, 1000 anos. Esta posição distingue completamente Israel e Igreja.
O pós-milenista, creem que a Segunda Vinda de Cristo ocorrerá após o milênio (não literal). Em geral, os pós-milenistas assumem a mesma postura amilenista com relação ao ensino da ressurreição, do julgamento final, da tribulação e da posição de Israel e Igreja.
Os amilenistas não fazem nenhuma distinção cronológica entre a segunda Vinda de Cristo, o arrebatamento da Igreja. Pa os amilenistas haverá apenas uma ressurreição geral, de credulos e incredulos, que ocorrerá durante a segunda Vinda de Cristo. O julgamento final será para todos os povos. O milênio (Apocalipse 20) não significa um milênio literal.
A posição escatológica mais fraca, em termos hermenêuticos, é a posição pré-milenista, devido à sua grade cronológica pré-estabelecida. Os pré-milenistas, em geral, começam com um quadro cronológico pré-estabelecido e passa a fazer uma colcha de retalhos das Escrituras, de acordo com o quadro já pré-desenhado por eles.

Por quê os evangélicos seguem o pré-milenismo?

Por uma simples razão, ignorância dos fatos históricos aliados a uma teimosia que os impede o conhecimento da verdade.
O pai da Reforma Protestante, Martinho Lutero (1517) acusava a igreja católica e o papado de ser a personificação do Anticristo. Até que o papa Paulo III, em 1545, convocou o Concílio de Trento.
Depois de 18 anos de debates, concluído finalmente em 1563, o concílio corrigiu alguns problemas, mas recusou0se reformar seus ensinamentos. A igreja reafirmou seus credos e tomaram a ofensiva, lançando o que ficou conhecido como contra Reforma.
Em 15 de agosto de 1534, Inácio de Loyola fundou a ordem católica secreta chamada Sociedade de Jesus (Jesuítas).

Representação do brasão dos Jesuítas
Os Jesuítas têm uma história escura de intrigas, sedição, perseguição e morte.
Os Jesuítas foram as estrela da Contra Reforma. No Concílio de Trento, os Jesuítas foram comissionados pelo papa para desenvolver uma interpretação nova das Escrituras que neutralizasse as aplicações protestantes do Anticristo. Francisco Ribera (1537-1591), um padre Jesuíta publica em 1590 um comentário contrário à interpretação da reforma Protestante relativo ao Anticristo. A tese de Ribera era projetar o Anticristo para um futuro distante da era Medieval.

Ribera então, foi o fundados do sistema escatológico "Pré-milenista".

Contra-capa do livro de Francisco Ribera
Segundo Ribera, tudo que segue o sexto selo de Apocalipse (cap.9) aplica-se ao breve período do Anticristo, e que o Anticristo só surgirá nos fins dos tempos.
Finalmente, Roma encontrou uma resposta para as acusações dos reformadores de que a igreja e o papa havia se tornado o Anticristo.
Os ensinamentos católicos sobre o Anticristo encontraram guarida no mundo evangélico. As igrejas evangélicas mudaram drasticamente suas crenças proféticas. Como isso aconteceu?
Tudo começou no século XIX, quando Edward Irving, tornou-se interessado na Segunda Vinda de Cristo. Infelizmente ele aceitou a escatologia futurista de Ribera.
Através de Irving, o anglicano John Nelson Darby adotou a escatologia de Ribera.
Após a morte de Darby, a escatologia futurista passou para Cyrus I. Scofileld, copilador das notas de estudo da referência biblica de Scofield.
Em 1970, o "best-seller" de Hall Lindsey, "A Agonia do Grande Planeta Terra" tem persuadido milhões de evangélicos a creem no ensinamento escatológico futurista (pré-milenismo) sobre o Anticristo. trata-se de um ensinamento divisionário da igreja católica romana incrivelmente aceito pelo mundo evangélico.


De cima para baixo, da esquerda para a direita: Edward Irving (1792-1834),  John  Nelson Darby (1800-1882),  Cyrus I. Scolfield (1843-1921) e Hal Lindsey - 1929





domingo, 25 de dezembro de 2011

Escatologia: Apocaliptica

Escatologia - Literatura Apocalíptica - terceira parte

Para entender o pensamento apocalítico temos que conhecer a história política do povo judeu. Tudo começa no ano de 586a.C. quando a Babilônia sob comando de Nabucodonosor, conquista Jerusalém. Este evento particular realmente é o que separa o período de liberdade do Antigo Israel e a identidade nacional do que se tornará o judaísmo.
A destruição de Jerusalém teve um efeito profundo no pensamento judeu. Em primeiro lugar, as promessas que tinha sido feitas a Davi tiveram que ser questionadas. Pelo que se diz "O trono de Davi duraria para sempre". Mas agora não havia mais trono. Assim o Exílio babilônico torna-se a base do desenvolvimento da teologia judia. Deus nos abandonou? É o deus babilônico mais poderoso que nosso Deus? E no processo desse pensamento, eles começaram a levar o trauma da destruição de Jerusalém e do Templo como uma reflexão teológica.


Muro das Lamentações em Jerusalém
Crônica Babilônicas de eventos do oitavo ano de Nabucodonosor

Como resultado deste trauma, a tradição judia teve que ser repensada.  sua história e parte dos textos bíblicos teve que ser reescritos. Na realidade muito das Escrituras hebraicas é produto do re-pensamento que aconteceu depois do Exílio babilônico.
O Império Babilônico que conquistou Israel, apesar da opulência, teve um reinado curto. Dentro de aproximadamente cinquenta anos depois da destruição de jerusalém, o Império Babilônico foi derrotado pelo Império Persa. É neste período, que a religião Persa (Zoroastrismo) impõe sua influência no pensamento judeu, conceitos como céu, inferno, anjos, demônios e imortalidade da alma que eram estranhos ao Antigo Israel, agora passa a fazer parte do judaísmo.
Depois de um século de guerra entre a Persa e Grécia, finalmente, Alexandre o Grande conquista o Oriente Médio.
Uma das políticas de Alexandre é, impor a cultura grega (helenismo) a estes povos.
Inicialmente, entre os judeus, há uma ênfase forte em manter a identidade judia. Mas está perspectiva mudará radicalmente no início do segundo século a.C., ao redor do ano 200 quando  os Ptolomeus que são os gregos do Egito que inicialmente tinha estado no controle de Jerusalém e Judeia passaram o domínio Grego na Síria aos Selêucidas. 


Representação das batalhas de Alexandre o Grande
Sobre os Selêucidas a experiência dos judeus é bem diferente. Em parte porque o programa de helenização dos Selêucidas é muito opressivo, e é menos tolerante com a religião judia.
E o resultado desta experiência é a revolta dos Macabeus, estes eventos estimularam um tipo de literatura que conhecemos como "Apocalíptica".

Apocalíptica

Dois livros mais populares da Bíblia são Daniel e Apocalipse. Ambos são cheios de ação, preocupados em especial com o futuro - isto é, o futuro do ponto de vista do autor ou de uma personagem do seu relato. Graças a esses elementos de futuridade, Daniel e o Apocalipse são muitas vezes considerados partes dos livros proféticos.
Ao contrário dos livros proféticos - menos Ezequiel -, dispõem as suas informações numa espécie de escala temporal - primeiro vai acontecer isto, depois aquilo -, servindo assim para fornecer um quadro cronológico. Mas, embora haja similaridade entre os profetas, de um lado, e Daniel e Apocalipse, de outro, são gêneros diferentes, porque estes últimos foram compostos para propósitos não-proféticos.


O conceito Messias no Judaísmo


Um conceito importante que precisamos fazer uma releitura é a questão Messiânica.
A palavra hebraica Mashiah significa "ungido"; o equivalente em grego é Christos, latinizado "Cristo". O título refere-se à cerimônia de coroação; o reis escolhido é ungido pelo derramamento de óleo sobre sua cabeça (I Sm 10.1), o que tem a implicação de ser o rei e seu reinado ter o apoio divino.
O pensamento messiânico no judaísmo é em grande parte produto dos séculos II e I a.C. No decorrer desse período, o conceito de messias foi trabalhado em termos de padrões escatológicos e recebeu um conteúdo muito especifico: ele deveria ser uma figura importante no cenário do fim da era. esse súbito aumento de evidência do pensamento messiânico não significa, no entanto, que grande número de judeus desses dois séculos tenha ficado sentado esperando a vinda do messias.


Representação do messias segundo o conceito antigo dos judeus
O ensinamento sobre o messias não fazia parte do culto na sinagoga e nem aparece na bíblia hebraica. Não devemos confundir uma esperança generalizada de alívio, nascida da perseguição, com uma doutrina desenvolvida. A esperança era disseminada; a doutrina, propriedade de seitas minoritárias e de escritores excêntricos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Escatologia de Israel

Escatologia de Israel - segunda parte

Para compreender a escatologia da Bíblia hebraica (Antigo Testamento cristão) é necessário dividir a história de Israel em dois períodos. O primeiro período inicia-se com a formação das tribos e se estende até o Exílio Babilônico. O segundo período, do retorno do Exílio até os dias de hoje.

Representação do antigo Israel
Antes do período do Exílio o conceito hebreu e posteriormente Israel da vida após a morte tinha sido drasticamente diferente do que se tornou durante os períodos pós-exílio.
De acordo com o conceito mais antigo, não existe a ideia de céu, inferno, salvação, perdição e imortalidade da alma. As preocupações devem ser centradas unicamente nesta vida. 
Conceitos de isolamento monástico era algo estranho. Na pratica, o objetivo é viver a vida da melhor e mais juta possível. Foi só depois do retorno do Exílio influenciados pelo Zoroastrismo e o Helenismo que os judeus passaram a crer nos conceitos da imortalidade da alma e ressurreição dos mortos, como também no céu, inferno, anjos e demônios.

Religião Persa - O dualismo cosmológico e religioso
Representação do Helenismo Grego - A apoteose de Homero
Antes dos períodos Pérsico e Helênico o conceito da vida após a morte era uma experiência sombria e escura chamada sheol. Quando uma pessoa morria, era o fim.
Como foi que o pensamento hebreu e posteriormente israelita tornou-se a doutrina pagã? Quando o pensamento israelita foi transferido para o ambiente de pensamento grego.
De modo que o ensino da Bíblia hebraica foi descartado e substituído por uma doutrina pagã.
Uma das poucas ideias novas do período grego (helenismo), que sobreviveu para entrar na corrente principal do judaísmo foi a crença na imortalidade da alma.
Na concepção mais antiga, vista abundantemente na Escritura hebraica, cada individuo é um todo indivisível, um nephesh hayyah. Todo o destino dos seres humanos se cumpre aqui na terra, ao morrer, eles vão para o sombrio mundo inferior, o sheol (sepultura), onde ficam para sempre.
Essa concepção era mais ou menos dominante até o período intertestamentário.
A afirmação da imortalidade da alma no cânone judeu aparece mais tarde, em Daniel (Dn 12.2), escrito na Palestina perto do ano 164a.C.
Portanto, a crença de que o homem tem uma alma imortal que habita apenas temporariamente o seu corpo chegou ao judaísmo através da filosofia grega (Platão) e se reflete em vários escritos de influência helênica. Nessa concepção, o corpo é um mero vaso de argila, indigno de seu inquilino espiritual. Esse dualismo, estava com certeza ausente da crença dos antigos israelita.